terça-feira, 19 de abril de 2011

Juristas! Esqueceram as Legendas.



     Não há quem me convença do contrario que a linguagem que eles usam, são no fundo, para diversão mútua. Cada um inventa um termo mais estapafúrdio e ganha entre eles o mais inusitado.
     As sessões do Supremo Tribunal Federal são agora transmitida pela TV justiça. É uma boa iniciativa. Só esqueceram as legenda. Porque, tenho certeza, para a maioria dos jovens, pelo ao menos os não juristinhas, as legendas seriam mais úteis aqui do que na maioria dos filmes em inglês.
     Imaginem o horror de um estrangeiro, estudante de português, que, depois de anos de aulas teórica, vem ao Brasil verificar com os nativos o grau de aprendizado da língua. E solta o coitado numa sessão de julgamento. O pobre vai ter certeza – convicção inconcussa, no nosso dizer jurídico – que perdeu anos de estudo.
     Para dizer que algo é obvio, de conhecimento comum, dizem: “ é cediço”. Imagina você chegar na padaria, constatar, indignado, que o preço do pãozinho aumentou, e disparar: “ é cediço que tal preço não era o então praticado”. Ou então: “tal valor não guarda correspondência com o preço que soi ser cobrado”. Juristas vivem, sim, num mundo á parte. Sempre tive medo deles.
     Se você chama um sujeito de conspícuo, na rua, vai levar um tapa. Se ele for pacifico, vai responder que é a mãe. No entanto, os advogados adoram essa palavra. Utilizam, com frequência, para se dirigir ás altas cortes. Se você chegar para um amigo e perguntar, solenemente, como vai sua colenda irmã, ele vai se ofender: - perá lá! Tudo bem que ela não é nenhuma santa, mas não precisa xingar.
     É melhor não usar juridiquês em publico. Suponha que você vá pegar sua namorada na casa dos pais, e, lá chegando, diga que vai leva-la ao Excelso Pretório. Não é impossível que o pai entre em casa e saia armado, dizendo que você vai levar sua vó pra lá.
     As coisas são mesmo estranhas no mundo jurídico. Quando querem dizer que algo é adequado, disparam: - calha á fiveleta... ora, é demais. Se você, tomando chazinho, á tarde, com aquela sua tia já velhinha, resmungar, entre um biscoito e outro: “Mas Tia, esses bolinhos calham a fiveleta com esse magnifico chá de capim santo”. Não, acho que nem ela entenderia.
     Se um jurista não concorda com as explicações de alguém, diz: - tal assertiva não merece prosperar... essa, pelo ao menos, é útil: imagine que você é surpreendido, abruptamente, por sua namorada, com outra mulher. Ela claro, vai te xingar. Ai você deve retorquir: querida tais assertivas não merecem prosperar. Até que ela desfaça a cara de tacho pela surpresa de não intender bulhufas o que você disse, é alguns segundo que você ganha para inventar uma boa desculpa.
     Sodalício. O que é isso pelo amor de Deus? Parece doença venérea. É algo como o médico, com ar grave e compungindo, chegar para você e dizer: senhor, sinto informa-lo, mas aqui está o diagnostico: Sodalício. Não precisa dizer mais nada; é sair dali para a ponte mais próxima.
     E acho que não por acaso, eles, advogados, amam as expressões primas e irmãs da morte: quando utilizam um argumento que imaginam decisivo, dizem: “ isso sepulta a discussão”. Sepulta a discursão? É no mínimo, de um mal gosto mortal. Outra: o prazo foi fulminado pela prescrição. Coitado do prazo: imagino-o logo tranquilo, andando devagarzinho, com seus lentos dias, e lá chega a prescrição, maldosa, a fulmina-lo, como se fosse um ataque cardíaco avassalado e insidioso.
     Juristas, todos sabem, chamam morto de “de cujus”. Há no anedotário jurídico, um caso clássico: um advogado, não muito esperto, esperneou, numa audiência, vociferando que era absurdo o de cujus morrer e deixar três de cujinhos.
     Não dá! São, sim gozadores esses juristas.
     Li, ontem, que um sujeito estava movendo, contra o outro, uma articula. Essa é boa; até agora não consegui atinar o que vem a ser uma articula. Boa coisa não é. Aviso logo, se alguém me vier com uma articula nas mãos, eu revido.
     Se um advogado te informa que você ainda dispõe de um remédio derradeiro, não pense que está desenganado. Pode ser que ele esteja querendo dizer que o processo ainda não acabou.
     Não vou nem falar das expressões latinas. Que é meio ridículo o sujeito intercalar, na conversa, umas velharias lá do tempo de César, não há duvida. A questão é: eles sabem mesmo do que estão falando, ou confiam que, como ninguém sabe, fica por isso mesmo?
     Eu tive uma namorada que dizia que sua virgindade era uma presunção absoluta. “juros et de jure”. Se eu soubesse o que era isso na época, seria fácil desmenti-la.
     Não, mas o melhor mesmo são as expressões utilizadas para falar com o juiz. Altiloquente Julgador, Excelentíssimo Sentenciador do feito. Eminente lavrador do decisum final, insigne e sabia magistrado. Minha expressão é que esses sujeitos passam o dia inteiro em frente ao espelho, treinando, porque para usa-las, é preciso muito treino: um pequeno deslize e sai um palavrão, o pobre coitado vai preso, e não vai poder alegar que foi uma inocente confusão semântica.
     Eu, portanto, declaro, em alto e bom som, que sou fã dos juristas. Se ainda não uso as expressões para comprar pão, é só por falta de treino. Mas na próxima noite com minha namorada, já sei o que falar, e estou certo que vou arrasar: - com efeito, conspícua e ditosa dama, digne-se a desnudar-se, para juntos, em carnal conúbio, possamos vislumbrar os gozos infindos do céu, em inconcussa ventura. o que virá na seguencia apenas Deus sabe, talvez divindande de um amor, cediço, ou talvez um tapa "com efeito". 


:)



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